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Sempre que me dedico à alguma “área” procuro mergulhar fundo na sua cultura, valores, princípios, etc… foi assim como DJ e PA, construção civil, produtoras de internet, revenda de valor agregado de software (VAR seller), centro de treinamento, grupo de usuários, ciberativismo, gestão de projetos, gestão estratégica e agora na academia, como mestre em ciência da informação pela UFRJ/PPGCI, onde defendi a dissertação “Algoritmização das relações sociais em rede, produção de crenças e construção da realidade”.

Em cada mergulho observo, pela minha perspectiva, o que tem de bom, de ruim e o que pode ser melhorado, é invariavelmente uma perspectiva crítica com objetivos transformadores.

A “bola da vez” é a academia, depois de concluir o mestrado ainda estou mergulhando na cultura acadêmica, e existem alguns pontos em que tenho questionamentos. Posso estar falando bobagem, mas preferi correr alguns riscos dado o momento em que vivemos, onde a própria universidade pública esta com sua vida ameaçada.

Um dos valores mais evidentes, que percebi logo de inicio é o da produção científica, tanto o estudante como o pesquisador são focados em produção científica. São artigos para revistas, congressos, seminários, a necessidade é quase uma obsessão, tornando-se um dos componentes do stress que atinge alunos de pós graduação stricto sensu.

A produção científica é o capital social e constrói o capital simbólico do acadêmico. Acho extremamente sensato que prestemos contas do que nos é ensinado por professores e orientadores de altíssimo nível, em um ensino de qualidade pelo qual não nos é cobrado um único centavo. Mas confesso que tem alguns paradoxos neste processo de produção e divulgação científica que tenho curiosidade de compreender.

Publicação em revistas científicas que comercializam seu trabalho

Este é um dos pontos que não consigo compreender, como algumas editoras se tornaram grandes sumidades na publicação científica, comercializando por valores exorbitantes sua produção científica, financiada na maioria das vezes com recursos públicos, sem repassar um mísero centavo para o autor ou sua instituição. E tem algumas que ainda cobram para publicar! Alias as universidades gastam verdadeiras fortunas para que seus alunos e pesquisadores tenham acesso à estas publicações. Como nos submetemos à este modelo de negócios perverso?

Eu pessoalmente não quero contribuir para esse modelo, e ver meu trabalho preso dentro de um gaiola perversa como esta. Há revistas abertas, e ainda há a possibilidade de tornar seu trabalho público nos grupos de trabalho e revistas de sua instituição, em um blog dedicado, em projetos de ciência aberta como o Open Science Framework ou tudo junto.

Exclusividade e segredos

O santo graal da academia é a busca por temas exclusivos e inovadores, por conta disto instala-se um clima de competitividade e mistério. Percebo muitas vezes um auto policiamento de alguns colegas ao falar de seus projetos, e até de suas referências, evitando aprofundar-se em seus temas, acredito que com receio de terem suas ideias “roubadas”.

Ideias não se roubam, se multiplicam, muitos colegas me deram insights importantíssimos em minha pesquisa. Uma exponencial do conhecimento se dá quando os que conseguem lidar com o conhecimento livre, encontram seus pares. A multiplicação das fontes, a cognição coletiva, novas perspectivas e novas conclusões são alguns dos benefícios deste brainstorm, que multiplicam o conhecimento exponencialmente. O novo conhecimento produzido será utilizado pelos interlocutores de forma específica, não existindo ai razão para não deixar livre o saber.

Muitos desconhecem o conceito do possível adjacente, e não compreendem que a produção científica não é uma prática individual, e sim coletiva isto se prova pela própria extensão e diversidade da bibliografia dos trabalhos.

“Academiquês”

Segundo Fulano(2018), a perspectiva epistemológica pela hermenêutica das idiossincrasias ontológicas do nexialismo acabam configurando em um processo agnotológico.

Uau né?! Que frase bacana para impressionar o/a crush!

Vamos traduzir então:

Segundo Fulano(2018), a perspectiva pela filosofia da ciência na interpretação dos signos das particularidades do ser enquanto ser, do especialista em coisa nenhuma, acabam em um processo do estudo da produção da ignorância.

O uso de expressões rebuscadas muitas vezes simplificam a informação científica, sintetizam um ou mais conceitos, permitindo nos expressar em um outro nível. Por esta perspectiva faz todo sentido, mas por outro lado, tem muita gente que exagera no uso destas expressões, tornando o texto extrema e desnecessariamente denso. Fico pensando se não é vaidade, uma necessidade torpe de se mostrar detentor do conhecimento.

Este academiquês, assim como outros “jargões” próprios de outras áreas acabam enclausurando seus membros em uma bolha cultural, isolando-os do mundo que o cerca, construindo uma percepção de superioridade. Isto cria um grave problema de comunicação, dificultando enormemente sua interlocução com o “mundo exterior”. Neste ponto, minha perspectiva favorita é a frase atribuída à Einstein: “Você só é detentor de um determinado saber, se o conseguir explicar para sua avó”.

Não podemos esquecer da “citomania”, textos em que à cada paragrafo uma nova citação, meu processo de leitura enxerga isto como “quebra-molas”, onde há um necessidade de reduzir a cada “segundo fulano(2018)”, mas compreendo que é uma premissa indispensável da escrita científica.

Ainda bem que meu orientador me apresentou a dois autores cujos textos são fluidos, justamente por seus desprendimentos do academiquês: Paulo Freire e Howard S. Becker, este inclusive cita seu antigo mentor Everett Hughes que era fanático pela escrita clara. Paulo Freire não parece uma leitura, parece uma conversa, ele didaticamente vai apresentando o tema e o conhecimento de grandes pensadores de forma clara e objetiva, um verdadeiro educador.

Eu acredito que caso não possamos abrir mão de nosso academiquês, tenhamos sempre uma versão palatável de nossos textos, que possam ser lidos e compreendidos por qualquer um, por esta razão estou criando um blog do meu projeto de pesquisa.

Eu falei que eu mesmo tinha dito

Em ética e metodologia da pesquisa me deparei com uns conceitos que achei bizarros. Auto citação e auto plágio, o primeiro refere-se quando você cita você mesmo em um novo texto, e o auto plágio parece piada, mas não é.

O plágio é o ato de assinar ou apresentar uma obra intelectual de qualquer natureza (texto, música, obra pictórica, fotografia, obra audiovisual, etc) contendo partes de uma obra que pertença a outra pessoa sem colocar os créditos para o autor original. (Wikipedia)

A própria definição de plágio fala em outra pessoa, então auto plágio deve ser algo como eu copiar algo de meu clone. Muito louco isto, se o conhecimento é meu, o fato de coloca-lo no papel não significa que o tirei de minha mente, é um conceito bizarro pelo qual a indústria do copyright se baseia. Quer dizer que não posso ressignificar, mudar ou complementar meu conhecimento, caso o já tenha publicado, pois ele é meu, mas não é meu? Acredito que este conceito estranhíssimo deva ter vindo dos contratos de cessão de direito autoral que se assina ao doar a sua pesquisa, para uma revista lucrar milhões com ela. Como eu nunca vou me submeter a isto, nunca vou saber se estou certo.

A auto citação é outra prática esquisita, imagine algo como: Segundo Eu(2017) a certeza absoluta é que Eu(2018) não faço a menor ideia de quem sou Eu(2018a), por que Eu(2018b) já me perdi em mim mesmo…

Coloque-se no seu lugar

Quando iria imaginar que justamente dentro da academia, a hierarquia, o conceito de castas intelectuais seria algo tão enraizado. O mestrando ou o doutorando se tornam mestre ou doutor, quando sua pesquisa é submetida a uma banca, isso faz sentido, é o ato de validação, críticas e reconhecimento de sua pesquisa.

Porém, o mestrando não esta habilitado a pensar, em construir teses, é um mero dissertador e organizador do saber alheio, isto quando esta qualificado, que significa que já tem boa parte de sua dissertação escrita e a submete a uma banca. Faz sentido, mas o que acho esquisito é o status de “mestrando não qualificado”.

Mas a coisa fica realmente estranha nos congressos, seminários e afins, onde geralmente o tipo de submissão reservada ao mestrando é o Poster. Sei que está pensando naquele negócio que você fazia no ensino básico numa cartolina, onde colava as figuras, e na hora de apresentar na feira de ciências ficava do lado para explica-lo aos transeuntes, é exatamente isto!

Enquanto você fica apresentando seu poster, ou simplesmente o deixa exposto, os doutores apresentam verbalmente seus trabalhos. Muitas vezes o mestrando submete seu trabalho em coautoria com doutores, algumas vezes dando a estes suas idéias, que não lhe são permitidas, recebendo em troca e uma mera posição de coautor, e registrando mais um ponto na corrida pela produção científica.

Bibliografia nórdica e masculina

A norma da ABNT e as internacionais para produções acadêmicas recomendam citar o sobrenome, seguido da inicial do nome, por exemplo BRAMAN, S. (2015) ou BRUNO, F. (2013). Ao procurar mais livros e artigos do Sr. Braman e do Sr. Bruno, descobri que na verdade era SANDRA Braman, e FERNANDA Bruno. Agora faço questão de identificar de alguma forma o gênero dos autores que cito, principalmente por serem em sua maioria do gênero feminino.

Quando comecei a colocar no mapa todas e todos autores que tenho usado, percebi que a maioria esmagadora fica na Europa e nos Estados Unidos, alguns autores em Singapura, e outros no Brasil, e nenhum no continente Africano. Por conta disto tenho procurado autores dentro de meu tema na Africa e na América Latina, até porque fiz um curso excelente sobre Algoritmos e Desigualdade organizado pelo ITS Rio, com pesquisadores Chilenos.

Silos do conhecimento

Não por acaso uma das aulas de humanidades digitais, encerrou com debate interessante em torno das vertentes digitais de cada área, antropologia digital, biblioteconomia digital, história digital, dentre outros, e o debate direcionou para os silos do conhecimento. A perspectiva se pronunciou quando da apresentação de uma pesquisa sobre a perspectiva transversal das publicações de humanidades digitais e ciência da informação. Os que publicaram sobre humanidades digitais são em sua maioria das areas de ciências humanas, enquanto os que publicam sobre ciência da informação são da biblioteconomia e comunicação, apesar de humanidades digitais e ciência da informação serem dois campos muito semelhantes, alias complementares, ou seriam partes do mesmo campo?

Isto evidencia duas questões, a primeira que o contexto digital é parte integrante de nossa realidade, tão permeado que exige sua integração em praticamente todas áreas de conhecimento. A outra é o fato de cada área estar desenvolvendo seu contexto digital seguindo linhas específicas, mas como a pesquisa demonstrou há concentração de campos e autores, mas há interligação entre os silos.

Os silos em si foram o “grand finale” da aula, quando se constatou de forma quase unânime sua existência. Cada área se encastela dentro de seus saberes, princípios e valores, de forma vertical.

Esta distinção é tão nítida, que gosto de observar no campus da Praia Vermelha da UFRJ, as características de cada instituto, principalmente pela parte estética, os valores são bem visíveis, assim como os princípios, mesmo que de forma pouco objetiva.

Transversalidade ao invés de linearidade

A tendência tem sido a transversalidade, eu pessoalmente tenho fascínio por campos transversais que sempre trazem novos saberes e conhecimentos pelo simples fato de transpor as bolhas ou silos. Foi o que propus no plano estratégico da ICANN em 2012 (“intra-community”).

ICANN strategic chart — Acervo pessoal

Esta busca por transversalidade me levou a escolher a ciência da informação por ser uma das áreas que em sua própria definição se declara interdisciplinar. Entretanto a práxis tem mostrado que a própria ciência da informação se insere em um silo, e que a interdisciplinaridade ainda é mais teórica do que prática, mas caminha decisiva para romper esta bolha.

Esta reflexão não termina por aqui, e sim este é o inicio, e novas publicações sobre o assunto podem surgir sem aviso prévio.


João Carlos Rebello Caribé

Mestre em Ciência da Informação pela UFRJ/PPGCI. Formado em Publicidade e Propaganda pela Estácio de Sá. Membro do Laboratório em Rede de Humanidades Digitais (LarHud) e do Estudos Críticos em Informação, Tecnologia e Organização Social (Escritos).

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