Nota: Este post foi iniciado em abril de 2019, e concluído quatro anos depois…

Logo após a tragédia de Suzano no dia 13/03/19, quando dois jovens entraram em uma escola fuzilando todos que viam pela frente, a busca por respostas à tamanha tragédia havia se tornado obsessão. No dia 15 de Março um Australiano atacou duas mesquitas em Christchurch na Nova Zelândia, matando 49 pessoas. O autor do atentado ainda transmitiu o atentado através de uma “live” no Facebook. Em 27 de março de 2023, um aluno esfaqueou e matou uma professora em São Paulo. Em abril de 2023, um homem invade uma creche em Blumenau, e mata quatro crianças. O que explica isso?

Os vídeo games violentos foram os primeiros a serem responsabilizados, mesmo de depois de dezenas de estudos científicos apontando na direção oposta. Uma forte ofensiva contra vídeo games violentos ganhou corpo no parlamento, em 2019, inclusive com projetos de lei visando proibir o desenvolvimento, importação, empréstimo, posse e locação de games violentos. É impressionante ver como o parlamento brasileiro se pauta pelo calor do momento, baseado em puro “achismo”, e não lança mão dos consultores e pesquisadores que lá trabalham, com o objetivo de apoiar o processo legislativo baseado na pesquisa científica.

Outro grande responsável foi o acesso à armas de fogo, indo na contra mão do desejo do presidente Bolsonaro, que flexibilizou a posse de armas de fogo por decreto. O posicionamento do governo já havia sido objeto de críticas, quando o ministro da Casa Civil declarou que para uma criança, uma arma era tão perigosa quanto um liquidificador. O acesso à armas de fogo deve ser dificultado e nunca facilitado, e seus portadores responsabilizados solidariamente por crimes cometidos por terceiros com suas armas.

O discurso de ódio crescente nas redes sociais desde 2013, também foi apontado como um dos responsáveis. Ódio e ignorância ganharam força desde então, uma combinação explosiva, permitindo conduzir e direcionar o ódio das massas contra inimigos reais e imaginários. Atrelado à este tema estão as fake news, que viram seu combate crescer de forma desmedida e atrapalhada antes das eleições, e o seu completo esvaziamento durante e depois destas. É no mínimo curioso observar como um tema que foi considerado “grande ameaça à democracia“, por um ministro do Supremo, Presidente do STE na época, simplesmente perder relevância desta forma.

Hugo Monteiro Ferreira, professor da Universidade Federal de Pernambuco, cunhou o termo “geração do quarto“, ao referir-se a jovens dependentes da Internet. Estes jovens acabam vivendo uma solidão, um isolamento social, onde suas relações se dão através da Internet, criando para si graves patologias. Hugo é enfático em responsabilizar os pais, para ele é uma questão cultural e endêmica, a falta de abertura e diálogo com os filhos, sujeitos muitas vezes à imposições, os levam a criar, por imitação, um padrão de comportamento intolerante. Este padrão de comportamento, reforça a polarização, adoecendo ainda mais a sociedade brasileira e global, que não admite a existência saudável das diferenças humanas. Hugo ressalta ainda que culpar a Internet, é apenas uma forma de eximir os pais desta responsabilidade, que contribuirá ainda mais neste processo de adoecimento.

Para Hugo, a falta de diálogo, de ouvir, e de amor, são as raízes do problema. A questão da divisão social, como gente de bem, de mal, por exemplo, contribuem ainda mais para o adoecimento da sociedade, e para a produção de jovens rejeitados, que acabam entrando em processo de desvinculação, atentando contra a vida, a sua ou de outros. 

Qual a relação das redes sociais com estes eventos?

Na ocasião eu percebi e propus, inclusive endereçando diretamente a alguns parlamentares a necessidade de levar o debate sobre a mediação algorítmica (regulação das plataformas) para o congresso. Apesar da complexidade da questão do massacre de Suzano, a mediação algorítmica das redes sociais está de uma forma ou de outra relacionada à este e outros eventos que afetam direta e indiretamente a sociedade global.

O assunto ganhou visibilidade quando o parlamento americano anunciou um projeto de lei para coibir o viés dos algoritmos, tema importante, mas é um dos subtemas da mediação algorítmica.

A especialista Kate O’Neill também levanta esta bandeira, para ela a sociedade precisa responsabilizar as plataformas como Facebook, Twitter, Google e outras redes sociais que definem conteúdo que é mostrado à população, ela defende a existência de um mecanismo capaz de supervisionar o modo como os algoritmos mediam as informações e relações entre usuários. A jornalista investigativa Carole Cadwalladr chega a classificar o Facebook como a maior ameaça à democracia dos últimos 100 anos!

A resposta a pergunta é simples, as mediação algorítmica das redes sociais é de fato uma Inteligência Artificial que extrai compulsivamente dados dos rastros digitais dos usuários, os modela, e compara com milhões de outros modelos, produzindo um retorno, que por homofilia (similaridade) indicando conteúdos, pessoas, grupos e páginas, que a I.A. identifica que ira produzir engajamento do indivíduo. A questão é que todo esse processo não faz nenhum juízo de valor ou julgamento, e o entrega para o indivíduo pura e simplesmente para conduzi-lo ao engajamento. Este processo acaba aproximando indivíduos com crenças e intenções similares, o que explica o crescente radicalismo, ainda mais que o processo de mediação os “enclausura” em bolhas de unanimidade, na qual estes indivíduos acreditam ser a opinião da maioria. Quando estes mecanismos capturam pessoas com idéias e intenções violentas, e as conectam com outras semelhantes, o resultado é exatamente tragédias como as que abrimos este texto.

Como esta mediação algorítmica funciona?

Se você tiver curiosidade, meu projeto de pesquisa do mestrado foi justamente sobre mediação algorítmica, e o vídeo abaixo tento explicar o assunto em pouco mais de 10 minutos.  

Se quiser saber mais, pode comprar meu livro “O Panspectron” ou baixar gratuitamente minha dissertação de mestrado.


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